Padel: um jogo para todos
- Francisca Pereira

- 19 dic 2024
- 8 min de lectura
Em 1969, no porto de Acapulco, no México, o sol escaldava e não havia melhor remédio do que fazer uma sesta para que o tempo passasse mais depressa. Enrique Corcuera, um entusiasta do desporto e da inovação, estava prestes a fazer a sua pausa habitual das 15:00 às 17:00. Entretanto, para se distrair, a sua mulher Viviana gostava de bater com uma bola de ténis contra a parede do quarto, um passatempo que, com o tempo, se tornara também a diversão da filha. Incapaz de dormir por causa deste som constante e irritante, Enrique decidiu adaptar um pequeno pedaço de terra na sua propriedade, para que a sua família pudesse jogar livremente enquanto ele descansava. Nasceu assim o padel, um desporto que, 55 anos depois, é reconhecido como um fenómeno global. Este aniversário marca um momento especial para refletir sobre a sua história e impacto atual, especialmente em Espanha, mais concretamente, em Sevilha, onde o padel encontrou o seu verdadeiro lar.

Desde a Descoberta à Expansão Andaluza
A ligação entre o padel e Espanha nasceu como nascem as grandes histórias: no cruzamento mágico entre o acaso e a paixão. Numa tarde quente, durante uma visita ao México, o príncipe hispano-alemão Alfonso de Hohenlohe encontrou no campo improvisado de Enrique Corcuera não só um jogo, mas uma ideia que o fascinou. Cativado pelo encanto deste desporto recém-inventado, decidiu levá-lo para a Europa, transformando-o num símbolo de convívio e lazer. De regresso a Espanha, construiu primeiro campo de padel fora do México, aproveitando o cenário privilegiado do Marbella Club, o hotel mais luxuoso da Costa do Sol e ponto de encontro da elite europeia. Ali, entre dias de sol e jogos informais, o padel criou raízes, encontrando em terras andaluzas o espaço perfeito para se expandir.
A Conquista das Terras Espanholas
Este, foi um processo gradual, mas contínuo que permitiu a difusão do desporto em Espanha e no estrangeiro. A influência de Marbella, com o seu ambiente exclusivo e alto perfil social, desempenhou um papel crucial na popularização inicial deste desporto que, ao longo dos anos, foi ganhando terreno noutras cidades espanholas, adaptando-se a diferentes realidades e tornando-se popular em locais como Madrid, Barcelona e Sevilha. Este crescimento foi impulsionado pelo carácter acessível e social do padel, que facilitou a sua integração em diversas comunidades, tornando-o uma prática popular tanto entre amadores como entre desportistas mais sérios. Assim, o que começou como uma inovação de um mexicano em Acapulco evoluiu para um fenómeno desportivo mundial e, hoje em dia, com mais de 16.000 campos de padel e milhões de jogadores, Espanha tornou-se o coração pulsante do desporto, um legado vivo do príncipe que ousou sonhar.

O Padel em Sevilha: Da Tradição ao Crescimento
O padel encontrou em Sevilha um ambiente propício para o seu desenvolvimento e popularidade. Nos últimos anos, a cidade, conhecida pelo seu rico património cultural e pela sua paixão por este desporto, estabeleceu-se como um centro fundamental para esta disciplina. Com mais de 50 campos espalhados por toda a província, Sevilha conheceu um notável “boom” do padel, impulsionado pela sua acessibilidade e carácter social.
Este crescimento reflete-se tanto no padel amador como no profissional. Torneios como o Sevilla Premier Padel atraem centenas de participantes e espectadores, consolidando a cidade como uma referência desportiva na Andaluzia. Alejandro Gómez, fundador da empresa "Sevilla Pádel Experience", salienta que o desporto se tornou um fenómeno que vai para além dos campos: “Dedicamo-nos a trazer turistas a Sevilha e a oferecer-lhes a experiência de jogar padel durante a sua estadia”, explica Alejandro.

Para além do seu impacto no panorama desportivo, o padel gerou um ecossistema económico vibrante em Sevilha. As academias e clubes locais registam um aumento constante da procura de aulas, enquanto a venda de equipamento desportivo e a construção de novas instalações continuam a crescer. Este desenvolvimento foi também impulsionado pela pandemia de COVID-19, uma vez que o padel, sendo jogado ao ar livre e com distanciamento físico, tornou-se uma das atividades mais seguras e populares na Europa durante esse período, como Alejandro confirma: “Durante a pandemia, em países como a Holanda, o padel era um dos poucos desportos permitidos. Isto gerou um boom na Europa que também beneficiou Sevilha como destino para a sua prática”.

Carlotta Ruiu, uma italiana de 21 anos que vive em Sevilha para um estágio universitário, é testemunha deste fenómeno de evolução do padel, que tem atraído uma grande variedade de pessoas, especialmente após a pandemia. Ela explica como as restrições da COVID-19 afetaram as opções de atividades desportivas e como o padel surgiu como uma alternativa acessível e segura durante esse período: “Conheci este desporto depois da COVID-19 porque muitos locais desportivos estavam fechados e o padel era um dos únicos que ainda estavam disponíveis para jogar”.
Sevilha como Destino de Experiência
O crescimento do padel em Sevilha não só teve impacto na população local, como também captou a atenção dos turistas que procuram experiências únicas. Alejandro Gómez, com a sua empresa, soube tirar partido desta tendência, integrando o desporto no turismo:
“Temos dois tipos de clientes: os que vêm a Sevilha exclusivamente para jogar padel e os que descobrem o desporto enquanto procuram outras atividades durante a sua estadia”, salienta Alejandro, destacando o papel do padel como uma ponte cultural e social.
Segundo ele, a maioria dos turistas que procuram estas experiências provem de países da Europa Central, especialmente da Holanda, Bélgica e Suécia, regiões onde o padel ainda é um desporto emergente. A faixa etária predominante situa-se entre os 35 e os 50 anos e tendem a viajar em grupos de amigos, atraídos pelo carácter social e acessível do padel. Além disso, o padel tem atraído iniciantes que, mesmo sem experiência prévia, encontram no desporto uma atividade acessível e inclusiva.
Com empresas como a "Sevilla Pádel Experience", Sevilha posiciona-se como destino de referência para o turismo desportivo, integrando o padel no panorama cultural da cidade. Para muitos, a experiência transcende o campo de jogo, transformando-se numa oportunidade de explorar a cultura local, fazer novos amigos e criar memórias inesquecíveis.
Um Fenómeno Social em Ascensão
O padel tem vindo a evoluir para algo mais do que apenas um desporto: é, cada vez mais, um fenómeno social. Este aspeto social é particularmente visível no contexto pós-pandemia, quando muitas modalidades estavam restritas e os campos de padel permaneciam abertos. Com o encerramento de outras opções desportivas, este desporto tornou-se uma das alternativas preferidas, não só pela sua natureza ao ar livre, mas também por ser uma forma segura e prazerosa de se manter ativo. Essa mudança no interesse, fez do padel mais do que um simples passatempo, mas também um ponto de encontro social, onde a interação e a diversão assumem um papel central.
Carlotta Ruiu, que descobriu o seu amor pelo padel durante a pandemia, descreve a experiência de jogar como algo divertido e social: “Podemos jogar com diferentes tipos de pessoas, como jovens, adultos, e é muito divertido e agradável”. Este tipo de inclusão, onde pessoas de diferentes idades e níveis de habilidade podem se juntar para jogar, é um dos principais fatores que tornam o padel tão atrativo. Além disso, por ser um desporto de fácil aprendizagem, com regras simples e uma mecânica acessível, a maioria dos iniciantes conseguem evoluir no jogo em pouco tempo e divertir-se rapidamente: “Não é preciso ser um especialista para jogar, por isso é bastante fácil. Quando se conhecem as regras básicas, penso que é fácil de aprender para toda a gente.”, afirma Carlotta. De acordo com ela, o desporto não apenas promove o encontro entre amigos, mas também é um espaço para conhecer novas pessoas. “Jogo com amigos casuais; todos os que estão disponíveis no momento e que precisamos para fazer a equipa completa”, comenta a mesma, sublinhando a flexibilidade social que o padel oferece, permitindo que qualquer pessoa, sem compromissos rígidos, participe neste jogo. Este aspeto espontâneo, onde o foco não é apenas na competição, mas também no prazer compartilhado, é uma característica que atrai tanto turistas quanto locais. O padel tornou-se uma excelente oportunidade para socializar, especialmente em cidades como Sevilha, onde se observa uma crescente mistura de visitantes de diferentes países e culturas.

Javi Peña, treinador profissional de padel no clube La Red 21, destaca ainda que “90% das pessoas, a nível de lazer, joga porque é divertido, porque gosta, porque joga com os amigos, mas não a nível competitivo”. Mesmo em clubes com estruturas mais voltadas para o desempenho, como o Galisport, apenas uma pequena percentagem participa em competições. Assim, o desporto acolhe tanto praticantes ocasionais quanto aqueles que desejam algo mais desafiante, reforçando a sua natureza inclusiva e abrangente.

Outro ponto importante é a dimensão social que o padel assume após o jogo. Para muitos, o momento pós-jogo é uma oportunidade para relaxar, conversar e fortalecer laços. Carlotta menciona que, após os jogos, frequentemente permanece com os amigos para beber um café, uma prática comum que reforça ainda mais a ideia de que o padel é uma atividade que vai além do desporto. Muitos jogadores aproveitam esses momentos para beber uma cerveja ou socializar de maneira informal, criando um ambiente acolhedor e descontraído onde as relações se solidificam, demonstrando assim, a importância destes rituais sociais, que fazem do padel uma experiência completa, onde o jogo acaba por se misturar com a convivência e o bem-estar.
Assim, o padel não é apenas uma modalidade de lazer, mas uma forma de integração social, onde a competitividade e a diversão se complementam. A facilidade de acesso, a natureza inclusiva e a forte componente social garantem que o padel continue a ser um fenómeno crescente, atraindo uma audiência diversa que não procura apenas um jogo, mas uma maneira de fazer parte de uma comunidade.

Um Futuro Promissor
O futuro do pádel está em franca expansão, especialmente em cidades como Sevilha, onde a prática do desporto tem ganho cada vez mais adeptos e gerado novos projetos inovadores. A cidade vai se afirmando como um ponto de referência no turismo desportivo, com empresas como a "Sevilla Pádel Experience", que oferecem experiências personalizadas para turistas internacionais.
O aumento de turistas a procurar o padel como atividade de lazer, aliado ao clima favorável de Sevilha, cria um ambiente favorável para o crescimento do desporto. Embora o turismo de padel seja mais comum entre adultos de 30 a 50 anos, o desporto atrai jogadores de todas as idades, "(...) dos cinco anos aos 70”, segundo Javi Peña. Essa diversidade etária reflete o caráter inclusivo do padel, que permite que pessoas de diferentes gerações e níveis de habilidade pratiquem juntas. Carlotta Ruiu vê também o potencial do padel, referindo que o mesmo ainda tem um longo caminho pela frente: “Acho que é um desporto novo, por isso ainda tem de se desenvolver (...), mas para os jovens, penso que tem muito potencial.”
Como referido, o padel ainda está no início do seu potencial global. Para Javi Peña, o desporto encontra-se atualmente em apenas 5% do que será em 20 anos. “Vai acontecer no resto dos países do mundo. É verdade que, neste momento, em Espanha, a Argentina é muito popular, mas em países como Itália, França e os países nórdicos, está a começar a arrancar, como em Espanha há 30 anos”.

Além disso, a possibilidade de o padel se tornar um desporto olímpico é uma questão cada vez mais discutida. Para este treinador, trata-se apenas de “uma questão de tempo”, destacando que a expansão do padel a nível global levará inevitavelmente à sua inclusão nos Jogos Olímpicos.
Sendo assim, o futuro do padel parece estar cada vez mais ligado à sua internacionalização, inovação tecnológica e à expansão das infraestruturas. Em Sevilha, a mistura de tradição e modernidade oferece um terreno fértil para o desporto florescer, atraindo não apenas jogadores profissionais, mas também um público crescente, que vê neste desporto uma forma acessível e divertida de se manter ativo e socializar. A tendência é que o padel se torne cada vez mais central no panorama desportivo global.
Este aniversário de 55 anos do pádel, é então uma oportunidade para refletirmos sobre o seu impacto e evolução, especialmente em Espanha, onde se tornou um fenómeno social e desportivo. Desde a sua criação acidental por Enrique Corcuera, o desporto encontrou em Sevilha um lar que contribui para o seu crescimento, com a cidade a abraçar o padel não só como uma prática desportiva, mas como uma parte importante da sua cultura e economia.
O caráter acessível e social do padel, acrescentado à sua flexibilidade, permitiu-lhe atravessar fronteiras e conquistar adeptos de todas as idades e origens. Com a popularização do desporto em Sevilha, a cidade não apenas se tornou um polo de prática do padel, mas também um destino turístico onde o desporto se envolve com a cultura local, criando experiências únicas para os jogadores e visitantes. Este 55.º aniversário é, portanto, um marco importante na história do padel, lembrando-nos de como um simples momento de inspiração pode transformar-se numa paixão global.





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