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Padel: um jogo para todos

Em 1969, no porto de Acapulco, no México, o sol escaldava e não havia melhor remédio do que fazer uma sesta para que o tempo passasse mais depressa. Enrique Corcuera, um entusiasta do desporto e da inovação, estava prestes a fazer a sua pausa habitual das 15:00 às 17:00. Entretanto, para se distrair, a sua mulher Viviana gostava de bater com uma bola de ténis contra a parede do quarto, um passatempo que, com o tempo, se tornara também a diversão da filha. Incapaz de dormir por causa deste som constante e irritante, Enrique decidiu adaptar um pequeno pedaço de terra na sua propriedade, para que a sua família pudesse jogar livremente enquanto ele descansava.  Nasceu assim o padel, um desporto que, 55 anos depois, é reconhecido como um fenómeno global. Este aniversário marca um momento especial para refletir sobre a sua história e impacto atual, especialmente em Espanha, mais concretamente, em Sevilha, onde o padel encontrou o seu verdadeiro lar. 


fotografia de Francisca Pereira
fotografia de Francisca Pereira



 Desde a Descoberta à Expansão Andaluza  


A ligação entre o padel e Espanha nasceu como nascem as grandes histórias: no cruzamento mágico entre o acaso e a paixão. Numa tarde quente, durante uma visita ao México, o príncipe hispano-alemão Alfonso de Hohenlohe encontrou no campo improvisado de Enrique Corcuera não só um jogo, mas uma ideia que o fascinou. Cativado pelo encanto deste desporto recém-inventado, decidiu levá-lo para a Europa, transformando-o num símbolo de convívio e lazer. De regresso a Espanha, construiu primeiro campo de padel fora do México, aproveitando o cenário privilegiado do Marbella Club, o hotel mais luxuoso da Costa do Sol e ponto de encontro da elite europeia. Ali, entre dias de sol e jogos informais, o padel criou raízes, encontrando em terras andaluzas o espaço perfeito para se expandir.  

 

A Conquista das Terras Espanholas


Este, foi um processo gradual, mas contínuo que permitiu a difusão do desporto em Espanha e no estrangeiro. A influência de Marbella, com o seu ambiente exclusivo e alto perfil social, desempenhou um papel crucial na popularização inicial deste desporto que, ao longo dos anos, foi ganhando terreno noutras cidades espanholas, adaptando-se a diferentes realidades e tornando-se popular em locais como Madrid, Barcelona e Sevilha. Este crescimento foi impulsionado pelo carácter acessível e social do padel, que facilitou a sua integração em diversas comunidades, tornando-o uma prática popular tanto entre amadores como entre desportistas mais sérios. Assim, o que começou como uma inovação de um mexicano em Acapulco evoluiu para um fenómeno desportivo mundial e, hoje em dia, com mais de 16.000 campos de padel e milhões de jogadores, Espanha tornou-se o coração pulsante do desporto, um legado vivo do príncipe que ousou sonhar. 


Fotografia por Francisca Pereira
Fotografia por Francisca Pereira

O Padel em Sevilha: Da Tradição ao Crescimento  


O padel encontrou em Sevilha um ambiente propício para o seu desenvolvimento e popularidade. Nos últimos anos, a cidade, conhecida pelo seu rico património cultural e pela sua paixão por este desporto, estabeleceu-se como um centro fundamental para esta disciplina. Com mais de 50 campos espalhados por toda a província, Sevilha conheceu um notável “boom” do padel, impulsionado pela sua acessibilidade e carácter social

 

Este crescimento reflete-se tanto no padel amador como no profissional. Torneios como o Sevilla Premier Padel atraem centenas de participantes e espectadores, consolidando a cidade como uma referência desportiva na Andaluzia. Alejandro Gómez, fundador da empresa "Sevilla Pádel Experience", salienta que o desporto se tornou um fenómeno que vai para além dos campos: “Dedicamo-nos a trazer turistas a Sevilha e a oferecer-lhes a experiência de jogar padel durante a sua estadia”, explica Alejandro.  


Alejandro Goméz, fundador da empresa "Sevilla Pádel Experience"
Alejandro Goméz, fundador da empresa "Sevilla Pádel Experience"

Para além do seu impacto no panorama desportivo, o padel gerou um ecossistema económico vibrante em Sevilha. As academias e clubes locais registam um aumento constante da procura de aulas, enquanto a venda de equipamento desportivo e a construção de novas instalações continuam a crescer. Este desenvolvimento foi também impulsionado pela pandemia de COVID-19,  uma vez que o padel, sendo jogado ao ar livre e com distanciamento físico, tornou-se uma das atividades mais seguras e populares na Europa durante esse período, como Alejandro confirma: “Durante a pandemia, em países como a Holanda, o padel era um dos poucos desportos permitidos. Isto gerou um boom na Europa que também beneficiou Sevilha como destino para a sua prática”.  


Fotografia por Francisca Pereira
Fotografia por Francisca Pereira

Carlotta Ruiu, uma italiana de 21 anos que vive em Sevilha para um estágio universitário, é testemunha deste fenómeno de evolução do padel, que tem atraído uma grande variedade de pessoas, especialmente após a pandemia. Ela explica como as restrições da COVID-19 afetaram as opções de atividades desportivas e como o padel surgiu como uma alternativa acessível e segura durante esse período: “Conheci este desporto depois da COVID-19 porque muitos locais desportivos estavam fechados e o padel era um dos únicos que ainda estavam disponíveis para jogar”

 

Sevilha como Destino de Experiência 


O crescimento do padel em Sevilha não só teve impacto na população local, como também captou a atenção dos turistas que procuram experiências únicas. Alejandro Gómez, com a sua empresa, soube tirar partido desta tendência, integrando o desporto no turismo:  

“Temos dois tipos de clientes: os que vêm a Sevilha exclusivamente para jogar padel e os que descobrem o desporto enquanto procuram outras atividades durante a sua estadia”, salienta Alejandro, destacando o papel do padel como uma ponte cultural e social


Segundo ele, a maioria dos turistas que procuram estas experiências provem de países da Europa Central, especialmente da Holanda, Bélgica e Suécia, regiões onde o padel ainda é um desporto emergente. A faixa etária predominante situa-se entre os 35 e os 50 anos e tendem a viajar em grupos de amigos, atraídos pelo carácter social e acessível do padel. Além disso, o padel tem atraído iniciantes que, mesmo sem experiência prévia, encontram no desporto uma atividade acessível e inclusiva.  


Com empresas como a "Sevilla Pádel Experience", Sevilha posiciona-se como destino de referência para o turismo desportivo, integrando o padel no panorama cultural da cidade. Para muitos, a experiência transcende o campo de jogo, transformando-se numa oportunidade de explorar a cultura local, fazer novos amigos e criar memórias inesquecíveis. 

 

Um Fenómeno Social em Ascensão


O padel tem vindo a evoluir para algo mais do que apenas um desporto: é, cada vez mais, um fenómeno social.  Este aspeto social é particularmente visível no contexto pós-pandemia, quando muitas modalidades estavam restritas e os campos de padel permaneciam abertos. Com o encerramento de outras opções desportivas, este desporto tornou-se uma das alternativas preferidas, não só pela sua natureza ao ar livre, mas também por ser uma forma segura e prazerosa de se manter ativo. Essa mudança no interesse, fez do padel mais do que um simples passatempo, mas também um ponto de encontro social, onde a interação e a diversão assumem um papel central. 


Carlotta Ruiu, que descobriu o seu amor pelo padel durante a pandemia, descreve a experiência de jogar como algo divertido e social: “Podemos jogar com diferentes tipos de pessoas, como jovens, adultos, e é muito divertido e agradável”. Este tipo de inclusão, onde pessoas de diferentes idades e níveis de habilidade podem se juntar para jogar, é um dos principais fatores que tornam o padel tão atrativo. Além disso, por ser um desporto de fácil aprendizagem, com regras simples e uma mecânica acessível, a maioria dos iniciantes conseguem evoluir no jogo em pouco tempo e divertir-se rapidamente: “Não é preciso ser um especialista para jogar, por isso é bastante fácil. Quando se conhecem as regras básicas, penso que é fácil de aprender para toda a gente.”, afirma Carlotta. De acordo com ela, o desporto não apenas promove o encontro entre amigos, mas também é um espaço para conhecer novas pessoas. “Jogo com amigos casuais; todos os que estão disponíveis no momento e que precisamos para fazer a equipa completa”, comenta a mesma, sublinhando a flexibilidade social que o padel oferece, permitindo que qualquer pessoa, sem compromissos rígidos, participe neste jogo. Este aspeto espontâneo, onde o foco não é apenas na competição, mas também no prazer compartilhado, é uma característica que atrai tanto turistas quanto locais. O padel tornou-se uma excelente oportunidade para socializar, especialmente em cidades como Sevilha, onde se observa uma crescente mistura de visitantes de diferentes países e culturas.  


Imagem fornecida por Carlotta Ruiu
Imagem fornecida por Carlotta Ruiu

Javi Peña, treinador profissional de padel no clube La Red 21, destaca ainda que “90% das pessoas, a nível de lazer, joga porque é divertido, porque gosta, porque joga com os amigos, mas não a nível competitivo”. Mesmo em clubes com estruturas mais voltadas para o desempenho, como o Galisport, apenas uma pequena percentagem participa em competições. Assim, o desporto acolhe tanto praticantes ocasionais quanto aqueles que desejam algo mais desafiante, reforçando a sua natureza inclusiva e abrangente


Javi Peña, treinador profissional de padel no clube "La Red 21"
Javi Peña, treinador profissional de padel no clube "La Red 21"

Outro ponto importante é a dimensão social que o padel assume após o jogo. Para muitos, o momento pós-jogo é uma oportunidade para relaxar, conversar e fortalecer laços. Carlotta menciona que, após os jogos, frequentemente permanece com os amigos para beber um café, uma prática comum que reforça ainda mais a ideia de que o padel é uma atividade que vai além do desporto. Muitos jogadores aproveitam esses momentos para beber uma cerveja ou socializar de maneira informal, criando um ambiente acolhedor e descontraído onde as relações se solidificam, demonstrando assim, a importância destes rituais sociais, que fazem do padel uma experiência completa, onde o jogo acaba por se misturar com a convivência e o bem-estar. 


Assim, o padel não é apenas uma modalidade de lazer, mas uma forma de integração social, onde a competitividade e a diversão se complementam. A facilidade de acesso, a natureza inclusiva e a forte componente social garantem que o padel continue a ser um fenómeno crescente, atraindo uma audiência diversa que não procura apenas um jogo, mas uma maneira de fazer parte de uma comunidade


Fotografia por Francisca Pereira
Fotografia por Francisca Pereira

Um Futuro Promissor 


futuro do pádel  está em franca expansão, especialmente em cidades como Sevilha, onde a prática do desporto tem ganho cada vez mais adeptos e gerado novos projetos inovadores. A cidade vai se afirmando como um ponto de referência no turismo desportivo, com empresas como a "Sevilla Pádel Experience", que oferecem experiências personalizadas para turistas internacionais.  


O aumento de turistas a procurar o padel como atividade de lazer, aliado ao clima favorável de Sevilha, cria um ambiente favorável para o crescimento do desporto. Embora o turismo de padel seja mais comum entre adultos de 30 a 50 anos, o desporto atrai jogadores de todas as idades, "(...) dos cinco anos aos 70”, segundo Javi Peña. Essa diversidade etária reflete o caráter inclusivo do padel, que permite que pessoas de diferentes gerações e níveis de habilidade pratiquem juntas.  Carlotta Ruiu vê também o potencial do padel, referindo que o mesmo ainda tem um longo caminho pela frente: “Acho que é um desporto novo, por isso ainda tem de se desenvolver (...), mas para os jovens, penso que tem muito potencial.” 

 

Como referido, o padel ainda está no início do seu potencial global. Para Javi Peña, o desporto encontra-se atualmente em apenas 5% do que será em 20 anos. “Vai acontecer no resto dos países do mundo. É verdade que, neste momento, em Espanha, a Argentina é muito popular, mas em países como Itália, França e os países nórdicos, está a começar a arrancar, como em Espanha há 30 anos”.  


Fotografia por Francisca Pereira
Fotografia por Francisca Pereira

Além disso, a possibilidade de o padel se tornar um desporto olímpico é uma questão cada vez mais discutida. Para este treinador, trata-se apenas de “uma questão de tempo”, destacando que a expansão do padel a nível global levará inevitavelmente à sua inclusão nos Jogos Olímpicos

 

Sendo assim, o futuro do padel parece estar cada vez mais ligado à sua internacionalização, inovação tecnológica e à expansão das infraestruturas. Em Sevilha, a mistura de tradição e modernidade oferece um terreno fértil para o desporto florescer, atraindo não apenas jogadores profissionais, mas também um público crescente, que vê neste desporto uma forma acessível e divertida de se manter ativo e socializar. A tendência é que o padel se torne cada vez mais central no panorama desportivo global

  

Este aniversário de 55 anos do pádel, é então uma oportunidade para refletirmos sobre o seu impacto e evolução, especialmente em Espanha, onde se tornou um fenómeno social e desportivo. Desde a sua criação acidental por Enrique Corcuera, o desporto encontrou em Sevilha um lar que contribui para o seu crescimento, com a cidade a abraçar o padel não só como uma prática desportiva, mas como uma parte importante da sua cultura e economia.


O caráter acessível e social do padel, acrescentado à sua flexibilidade, permitiu-lhe atravessar fronteiras e conquistar adeptos de todas as idades e origens. Com a popularização do desporto em Sevilha, a cidade não apenas se tornou um polo de prática do padel, mas também um destino turístico onde o desporto se envolve com a cultura local, criando experiências únicas para os jogadores e visitantes. Este 55.º aniversário é, portanto, um marco importante na história do padel, lembrando-nos de como um simples momento de inspiração pode transformar-se numa paixão global


Fotografia por Francisca Pereira
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